Cobertura do Espírito X Cobertura do Egito



“Ai dos filhos rebeldes, diz o Senhor, que tomaram conselho, mas não de mim! E que se cobriram com uma cobertura, mas não do meu Espírito, para acrescentarem pecado a pecado! Que descem ao Egito, sem perguntarem à minha boca, para se fortificarem com a força de Faraó e para confiarem na sombra do Egito! Porque a força de Faraó se vos tornará em vergonha, e a confiança na sombra do Egito, em confusão”.
Isaías 30:1-3

O contexto histórico deste fragmento das Escrituras encontra seu paralelo nos capítulo 18 e 19 do II Reis, narrando um período de domínio Assírio como potência militar que subjugava de forma tirana algumas nações entre as quais, Israel.
O rei Ezequias, cansado de arcar com os pesados tributos, coligou-se a uma conspiração internacional que tinha como principal aliado o Egito, com o objetivo de enfrentar e acabar com o domínio da Assíria sobre Israel.
Contudo, no plano espiritual, que contempla muito além das razões políticas, algo muito mais profundo e grave estava ocorrendo, sendo revelado ao profeta Isaías que, de imediato, comunicou ao rei a fim de que o mesmo se alinhasse ao mover profético.
A partir deste exemplo, gostaria de editar uma forma de pensamento sobre o conflito entre essas duas dimensões tão ativas e concorrentes dentro de nós. Cobertura do Espírito e Cobertura do Egito são duas formas de encontrarmos bases para nossas atitudes e duas maneiras de apoiar e justificar nossas teses.
Vamos vê-las:

I) A cobertura do Espírito (versículo 1)
Sem a pretensão de mistificar ou desmistificar, nem tampouco, esgotar o amplo assunto “Cobertura Espiritual”, gostaria apenas de registrar meu entendimento sobre o tema, à luz deste único versículo.
Segundo o texto, podemos observar que o tema cobertura do espírito, está intimamente vinculado ao quesito “obediência ao conselho de Deus”.

Naquela situação extremamente delicada que vivia Israel, sob a insegurança de viver debaixo de um domínio tirano de uma nação sanguinária, o rei Ezequias se viu em posição emergencial para a tomada urgente de uma atitude.
Sendo um estadista, aquele rei agiu da mesma maneira que qualquer outro líder responsável de alguma nação o faria. Dispondo de todas as alianças diplomáticas que tinha a seu alcance, Ezequias ponderou que pagar tributos ao Egito seria, naquele momento, melhor negócio do que continuar assistindo os cofres da nação se esvaziando ano após ano, enriquecendo com isso a nação Assíria.
Aquela era uma maneira de pensar muito lógica para um líder de nação!
Tudo o que ele queria como rei era cumprir com sua obrigação de preservar a soberania de seu país, não se abstendo de tomar as devidas atitudes para atingir seu objetivo de proteção nacional.
Porém, conforme nos adverte o apóstolo Paulo na carta aos romanos, não devemos nos confirmar com este mundo, antes, precisamos ser transformados pela renovação das mentes para enfim experimentar a perfeita vontade de Deus.
O texto no qual estamos refletindo inicia dizendo: “Ai dos filhos rebeldes”.
Como povo de Deus, estamos destinados a uma dependência irrestrita de sua palavra e quando agimos fora do seu Conselho, saímos de sob sua cobertura, conforme diz a continuidade do texto: “que se cobriram com uma cobertura, mas não a do meu Espírito”.
Os que se estribam no arrogante entendimento humano, se tornam rebeldes. Os filhos de Deus que tomam suas decisões a partir de estatísticas, estudos sociológicos ou quaisquer outras formas científicas, podem estar se enganando terrivelmente e o que é pior, se rebelando contra o Conselho de Deus.
Só há uma verdade e ela é o Verbo! Somente a Palavra Viva e revelada, aprovada com a chancela do Espírito poderá nos garantir a Cobertura indefectível que vem de Deus.
O que for fora disso, repito, pode ser insurreição!! Repense as bases de suas atitudes.

II) A Cobertura do Egito (Versículo 2)
Para que pudessem levar seus tributos ao Egito, os diplomatas israelenses deveriam viajar pelo Negev (palavra hebraica que quer dizer sul).
Passar pelo Negev já era por si só uma aventura muito arriscada, pois era uma área acidentada e perigosa onde haviam muitos animais selvagens.
Israel estava pagando um alto preço para levar suas mercadorias ao Egito porque seu líder acreditava cabalmente que aquela aliança seria um recurso determinante na solução de seus problemas.
Para nós, avaliar essa história teologicamente e conhecendo suas implicações e como tudo acabou é fácil concluir que aquela era um atitude alucinada do rei Ezequias, porém, é muito comum vermos crentes saírem debaixo da Cobertura do Espírito para entrar na Cobertura do Egito. Mas por que isso acontece?
Quem entra debaixo da cobertura do Egito, passa a ser fortalecido pela força do Faraó. Todos os que estudam a Bíblia sabem que o Egito é o símbolo do mundo pagão, que não tem o Deus de Israel como seu Rei máximo e essa força faraônica é simbolizada pelas pirâmides, onde vemos o ungido dominando sobre a massa popular, ou seja, o forte governa, oprimindo e escravizando a multidão dos desfavorecidos.
É um sistema de organização social que não tem em sua essência os princípios Divinos, mas a mentalidade filosófica, cultural e política seculares de quem sempre viveu longe e em rebelião contra a vontade de Deus.
É assim que nosso mundo é e foi governado sempre. O próprio Jesus disse isso aos seus discípulos:
“no mundo, o maior domina sobre o menor, mas entre vós não será assim”.
Aí está uma afirmação crucial do Mestre: Entre nós não deve ser assim!
Existe, contudo, uma resposta imediata e real do Faraó para todos os que o buscam como sua cobertura.
Pessoalmente, enxergo a cobertura como uma árvore cujos galhos, folhas e frutos trazem sombra, abrigo e alimento para diversas espécies de aves, animais e até homens. A cobertura do Egito fornece insumos para que as instituições possam desenvolver e obter certa proteção em seus projetos, oferecendo condições de hospedarem-se debaixo de sua sombra, desde que seja pago o seu devido tributo, é lógico.
Isso é comprovado pelo funcionamento dos sistemas de crédito que dão sua cobertura para que alguém possa adquirir seus bens móveis e imóveis, conquistando seu patrimônio neste mundo, porém, através do pagamento de uma comissão, chamada de juros, que é o mesmo tributo com um nome diferente.
Perceba que quando se está em uma situação de perigo financeiro, a cobertura mundial oferece crédito para que uma pessoa, instituição ou até uma nação possa ser socorrida.
Foi isso o que o rei Ezequias fez e foi por esse motivo que ele foi chamado por Deus de rebelde.
Pense bem: nós fazemos isso quase todos os dias! Recorremos ao crédito que os sistemas cooperativos e bancários nos oferecem sempre que uma situação de emergência nos aflige. Até mesmo quando precisamos adquirir novos bens, como carros, casa, computadores ou Tvs de plasma, utilizamos dessa cobertura.
O que quero dizer é que tanto naquele tempo, quanto hoje, essa relação de cobertura que o Egito/Mundo oferece tem a mesma incidência e influência sobre os homens.
Depender de Deus é sempre mais complicado e as respostas sempre virão num tempo posterior ao que gostaríamos, porém, fazer alianças com políticos, empresários, meios de comunicação em massa podem consistir em um ato de rebelião de nossa parte, tanto individual quanto institucionalmente.

III) Força do Faraó e Sombra do Egito: Vergonha e Confusão!
Como Igreja, ao sermos fortalecidos com os poderes que dominam este mundo, automaticamente, estamos nos desfazendo em público da força de Deus.
O apego ao dinheiro é algo tão evidente na vida e no testemunho dos evangélicos que isso se tornou em motivo de vergonha perante a opinião pública, enfraquecendo a pregação do Evangelho ao mundo.
Essa conformação à necessidade do dinheiro que alguns líderes demonstram em suas próprias vidas e na condução de suas obras evidencia que muitos entre nós vivem debaixo da cobertura do Egito e não do Espírito.
Encontra-se até quem cite textos como
“o dinheiro a tudo responde” como base teológica para tal dependência.
Crer na Força do Faraó constitui em uma vergonha para a Igreja!

Do mesmo modo, a Sombra do Egito acaba confundindo os próprios cristãos na sua missão evangelizadora. Muitos se tornaram tão secularizados na forma de conduzir a igreja que se torna impossível perceber a diferença entre ela e uma empresa qualquer.
Algumas igrejas se tornaram multinacionais de porte e lucratividade gigantesca, donas de grandes impérios internacionais de telecomunicações, contabilizando receitas vultuosas.
Ainda há os métodos de pregação que muitos utilizam, baseados em estudos psicológicos que visam a manipulação mental de grandes massas populares, com forte apelo emocional e técnicas de atração e persuasão.
Argumentos e poderes como estes, nada tem a ver com a obra do Espírito Santo, mas são frutos que se encontram na Árvore do Egito e que estão disponíveis a todos os que recorrerem a sua cobertura.
Os resultados obtidos por essa enganosa e ilusória eficiência podem confundir os mais sinceros e experientes crentes, pois como muitos desses líderes que não andam debaixo da cobertura do Espírito costumam dizer: “contra fatos não há argumentos!”
A Sombra do Egito gera grande confusão.

Conclusão
As duas coberturas estão disponíveis a todos os crentes. Ezequias, rei de Israel, escolheu o Egito porque lhe parecia o mais sensato e eficaz a se fazer. Isso até que o mesmo foi confrontado pelo profeta, sendo-lhe então revelada a verdadeira vontade de Deus para o rei e a nação.
Espero sinceramente que esta leitura seja uma ferramenta profética na vida daqueles que optaram pela cobertura visível e lógica, mas de resultados catastróficos, que vem do Egito e possam retornar para debaixo da obediência verdadeira do Espírito. Devemos perseverar no fato de que Deus é Espírito e que seu Reino não é deste mundo e por isso, todas as vezes que estivermos em circunstâncias adversas, o desafio será sempre o de esperar pela reposta genuína do Espírito para cada um de nós e para as igrejas que conduzimos como pastores do rebanho de Deus.

Onda de Choque - Uma Visão Apostólica



Uma visão apostólica é aquela que edifica sobre o firme, absoluto e incontestável fundamento de tudo o que se relaciona e/ou se define como igreja, ou seja, sobre Jesus. Promove edificação e crescimento com solidez, vinculando pessoas com laços de amor, caridade e humildade em torno das Boas Novas do Evangelho de Cristo e suas reais virtudes.

Onda de Choque é uma visão que provê a doutrina e a administração da Igreja com base na união dos 5 ministérios enumerados pelo Apóstolo Paulo aos Efésios, no capítulo 4 daquela carta, onde cada ministro, devidamente capacitado por Cristo, torna-se uma ferramenta interdependente dos demais, a fim de formar uma sistema completo de percepção, análise, motivação, ensino e operacionalidade da comunidade dos santos chamados, conduzindo-os em harmonia e consonância à Grande Comissão e ao Grande Mandamento, ambos ensinados, vividos e deixados por Jesus Cristo como legado à seus seguidores.

Estudando e meditando nesse formato de igreja, que passa a que visa o abandono mero discurso e adentra no campo das realizações, observamos que uma grande revolução doutrinária vem se estabelecendo dentre os crentes pelo mundo afora, geração após outra.
Visionários têm sido inspirados pessoalmente por Jesus a vislumbrar contextos totalmente diferentes daqueles que estão vivendo em seu tempo. Temos visto que nada é estabelecido na terra da parte de Deus sem que seja precedido por um longo processo de renovação de mente no meio da igreja.
É sabido que Martinho Lutero foi somente aquele que puxou o gatilho de uma arma teológica que vinha sendo construída por diversos homens de Deus que o precederam e que enxergaram além de seu tempo, tendo um relance profético daquela nova realidade religiosa.
Aliás, quem foram de fato esses homens?
Eles foram os reparadores de brechas de suas gerações, anônimos apaixonados pelo estabelecimento da justiça, da tolerância pacífica e do amor fraternal pertencentes a um Reino místico que estava perto de seus olhos sonhadores, mas longe de suas mãos soterradas num mundo real.

Creio que Onda de Choque possui hoje a mesma força de uma pequena pedra lançada sobre as águas de um calmo lago espelhado: pequena, mas capaz de produzir ondas que reverberam calmamente até suas margens, desenhando a amplitude do alcance da semente de um sonho plantado por Deus no coração de alguns jovens.

Simbolicamente, adotamos a figura de um punho cerrado, representando a mais perfeita ferramenta de luta humana. Cada um dos 5 dedos evocando os ministérios unidos e firmados entre si, formando uma arma de impacto que com seu soco promoverá uma Onda que espalhará em todas as direções um novo modelo de igreja adequado ao futuro próximo da humanidade.

É possível demarcar na história recente da Igreja na Terra alguns momentos que se tornaram fundamentais na construção desta Visão cuja revelação temos recebido do Espírito nos dias atuais.
Pelo menos dos últimos 100 anos pra cá, a começar pelo avivamento da Rua Azuza, temos sido profundamente influenciados por um mover carismático que significou a devolução dos dons do Espírito Santo a nós como Igreja. Após isso, observando as necessidades de um ensino das Escrituras mais eficiente, alguns movimentos de discipulado e pastoreamento foram estabelecidos segundo modelos mais próximos aos utilizados pela Igreja Primitiva e vieram as células. A adoração com as artes tem se estabelecido como uma excelente ferramenta profética, conduzindo a Igreja a uma atmosfera solene de adoração ao Pai. Por último, estamos presenciando o grande movimento espiritual da restauração do ministério contemporâneo dos apóstolos, que tem conduzido o povo de Deus a uma revelação muito profunda de Jesus e suas Palavras. Pessoalmente, creio que os apóstolos estão sendo reativadas por serem ferramentas fundamentais para o nosso testemunho diante do mundo, pois eles receberam diretamente da Cabeça da Igreja os trilhos que nos conduzirão ao fiel testemunho do Evangelho.
Vejo, neste breve extrato histórico dos últimos 100 anos uma profunda e progressiva revelação da Trindade, o que representa que a Divindade está-se permitindo ver de uma forma mais intensa, manifestando a completude de seu Ser ao mundo.

Por fim, acredito que, seguindo o costume da história dos homens, este movimento desencadeará uma nova ruptura, separando os visionários do sistema vigente que opera a Igreja Cristã. Um sistema tão profundamente enlaçado com o Egito que a torna parte uma integrante e indivisível dele.
Quero dizer com isso que muitas de todas as divisões que temos visto nas igrejas não têm produzido a necessária separação do sistema que, tal como um vírus de computador, tem infectado coletiva e individualmente as mentes dos cristãos, conformando-os gravemente ao modelo decaído das trevas.
Vivendo debaixo do mesmo manto com tão profunda ligação, somente uma quebra de proporções radicais, acompanhada de uma longa e purgante jornada no “útero de Deus”, o Deserto, poderá desintoxicar e desatar pessoas para a vivência dessa nova realidade de vida eclesiástica.

Alguns já têm optado por esta jornada ao desconhecido, quase sempre tida como maldita e herética pelas denominações oficializadas e batizadas nas águas do Faraó. Muitos outros ainda virão!
Neste caminho incerto e de sofrimento solitário, Onda de Choque vem profetizar um tempo novo que está sendo inaugurado pelo Espírito Santo no mais profundo terreno do ser humano, seu coração.
Cremos na veracidade deste testemunho e proclamamos que um despertar grandioso dos ministérios, seguido de um profundo quebrantamento conduzirá a Igreja em uma aliança de unidade a uma nova dimensão de manifestação do Reino de Deus na Terra.




Pastor Rafa Reparador
Onda de Choque

A Doença dos Homens



Estamos vivendo em tempos difíceis. Para onde quer que você olhe, há crise, falta de esperança, falta de soluções. Na política, corrupção; na vida econômica, desigualdades sociais vergonhosas; na educação, desilusão e falta de modelos; na cultura, imoralidade e relativismo total; na sociedade, criminalidade, insegurança, isolamento e alienação.

O pior de tudo – para nós cristãos – é que quando olhamos para a igreja, que deveria ser luzeiro de esperanças no meio das trevas, vemos as mesmas crises e estatísticas que há no restante da sociedade.

Não precisamos repetir aqui que a raiz de tudo isso está no desmoronamento da unidade familiar. Mais do que isso: nenhuma mudança verdadeira ou duradoura ocorrerá na sociedade sem mudanças anteriores e radicais no lugar onde tudo começa, na própria célula fundamental da sociedade. Não adianta, por exemplo, pensar em mudar o sistema educacional sem mudar a formação que as crianças recebem no lar; será inútil passar leis de moralidade no Congresso se não redescobrirmos como estabelecer e transmitir verdadeiros padrões morais dentro de casa – e assim sucessivamente.
Na igreja, isso deveria ser mais evidente ainda, embora na prática não o seja: podemos implantar modelo após modelo de estrutura, crescimento e multiplicação, podemos até levar a igreja de volta aos lares, o que representa um grande e fundamental retorno à prática original da igreja primitiva – porém se não houver restauração da própria família, nada de essencial mudará. A igreja continuará anunciando salvação e bênçãos pessoais, ao mesmo tempo que vive, em grande parte, os mesmos dilemas e falhas do resto do mundo.
A família está doente, desajustada, desestruturada. Por quê? O que aconteceu? Por um lado, podemos dizer que, sem Deus, a família sempre teve e sempre terá problemas. Porém, nas últimas décadas, a situação vem se agravando porque o homem, a peça chave que, de acordo com o plano original na Bíblia, representa a conexão vital entre a família e Deus (veja 1 Co 11.3), está cada vez mais distante do seu devido papel. E quando o homem sai do seu papel correto, todas as demais funções na família ficam desajustadas também.

O Papel Perdido do Homem
Durante muitos séculos, principalmente nos países que tinham influência cristã, o homem conhecia seu papel na família. Havia modelos errados, havia abusos, havia opressão e tirania, mas também havia muitos modelos certos. Mesmo nas famílias que não eram cristãs, havia uma semelhança ou sombra do padrão bíblico. O homem não só supria a família com sustento material, mas trazia direção, visão e identidade.
O padrão original de Deus pode ser visto em diversos exemplos bíblicos: Noé levando sua família toda para a arca (Gn 6.18; 7.1,7), Abraão deixando sua parentela para seguir uma palavra de Deus e ordenando a seus filhos depois dele (Gn 12.1; 17.23; 18.19), Josué definindo o futuro de sua família (Js 24.15), o carcereiro de Filipos trazendo toda sua família ao reino de Deus (At 16.31-34). Na qualificação dos líderes na igreja primitiva (1 Tm 3.4,5,12), um dos principais requisitos era o de que o homem estivesse cumprindo plenamente o seu papel.
Com as tendências do mundo secular, cada vez mais distantes dos alicerces cristãos, a pressão tem sido enorme no sentido de negar ao homem esse papel de prover liderança, visão e identidade à família. Embora seja verdade que no passado a mulher tenha sido oprimida e sufocada em muitos sentidos, sua emancipação para uma posição de igualdade no lar e na sociedade deixou o homem perplexo e sem função.
Como geralmente acontece, a situação saiu de um extremo e foi para outro: o homem não só deixou de exercer controle absoluto e tirânico sobre a mulher e os filhos, deixou também de oferecer qualquer tipo de direção. Decisões são tomadas “democraticamente”, o que resulta, muitas vezes, em conflitos, separações, direções independentes em que cada membro da família faz o que bem entende, ou retração e passividade por parte do homem. Como a mulher, agora, geralmente trabalha, nem a função de prover sustento é mais uma função exclusivamente masculina.
O homem está se tornando, progressivamente, uma peça inútil e desnecessária na família. As estatísticas mostram um número cada vez maior de mulheres que são cabeças do lar – o que deixa ao homem uma mera função biológica de procriação.
Até na igreja tornou-se impopular falar a respeito da função de liderança do marido. Ninguém quer correr o risco de fortalecer ou apoiar aquela imagem ultrapassada de homem machista e dominador. Enfatiza-se, pelo contrário, a importância de ajudar a esposa nos afazeres domésticos, de ser mais meigo, mais afável, mais carinhoso (o que não deixa de ser um aspecto importante e verdadeiro!).
O problema é que não há um entendimento ou fortalecimento do verdadeiro papel que Deus deu ao homem. E isso faz parte de uma grande estratégia do inimigo para domesticar e emascular o homem e para privá-lo de sua maior e mais essencial contribuição, deixando-o frustrado e inoperante. Pois, com isso, Satanás consegue desvirtuar a família e afetar radicalmente a igreja e a sociedade.
O resultado é isto que estamos vendo hoje, dentro e fora da igreja: homens sem identidade, frustrados, passivos ou irados (de acordo com o temperamento), sentindo-se inferiores, sem qualificações para encontrar sua verdadeira hombridade e função na família, e tentando se esconder ou refugiar em várias formas enganosas de compensação.
Um dos aspectos mais assustadores de tudo isso é que forma um processo cíclico, que piora a cada geração. Pois os homens que perderam sua identidade naturalmente não conseguem transmitir hombridade e senso de destino para os filhos. E estes, por sua vez, terão uma dificuldade maior ainda para passar algo de valor para a próxima geração.

O Nome da Doença
A situação está tão grave que vários autores (como Gordon Dalbey, John Eldredge, em Coração Selvagem, Mike Genung e outros) já estão diagnosticando essa deficiência nos homens como a ferida do pai.
Chama-se ferida do pai porque consiste na quebra do ciclo natural e saudável que Deus instituiu, no qual o pai transmite ao filho a bênção que inclui o nome (identidade), um senso de valor, uma visão (destino) e a segurança de que será capaz de alcançá-la. O pai é o único, na família, que é capaz de dar uma resposta firme e segura à grande pergunta que brota em todo coração masculino: Eu sou capaz? Tenho o que é necessário para ser um homem? (veja texto ao lado, A Grande Pergunta).
Quando essa função não é exercida na vida de um garoto, um abismo é gerado no seu interior, que se manifesta como vergonha, falta de direção, insegurança, necessidade de se afirmar etc. (A função do pai é essencial na formação de filhas também, porém aqui nos limitaremos a falar sobre o que acontece com os filhos, por estarmos tratando do papel perdido do homem na família.)
Há duas maneiras principais em que a ferida é infligida pelo pai. Na primeira, o pai menospreza e diminui o filho, de forma direta e cruel. Pode ser através de palavras, mas pode também chegar a abuso físico e sexual. Não é preciso dizer que causa danos terríveis e, humanamente falando, irreparáveis no interior de meninos e adolescentes em formação.

A ferida mais comum, entretanto, é bem mais sutil e difícil de ser identificada. É causada pela omissão dos pais, por seu silêncio, por sua ausência nos momentos mais críticos da vida. Muitas famílias (e isso acontece com muita freqüência dentro da igreja) têm a presença física de um pai que, por uma série de razões, não sabe como exercer sua função:
não dá sua bênção, não dá opinião, não encoraja, não corrige, não oferece visão ou propósito, não explica, não sabe como situar o filho dentro da vida, como ensiná-lo a tomar decisões, como escolher, como achar o rumo certo. Ele pode até ser considerado um pai bonzinho, pai amigo, pai provedor, mas está ausente nas crises, não oferece segurança, identidade ou direção.
Com um senso de incapacidade e frustração, o homem tende a deixar a criação de filhos para a mãe – ou, como ela também se ausenta cada vez mais em virtude do trabalho secular, o papel de influenciar e direcionar acaba ficando para professores, amigos ou ninguém em particular.

A princípio, o jovem adolescente pode nem achar que algo está faltando. Pode até se sentir mais independente, dono de si. Contudo, isso vai gerando um vácuo de propósito e direção, uma falta de sentido, que o acompanhará por toda sua vida. Como escreve John Eldredge, em Coração Selvagem:
Um menino aprende quem é e o potencial que tem de um outro homem ou por estar em companhia dos homens. Ele não pode aprender isso de nenhum outro lugar, não de outros meninos, muito menos do mundo das mulheres.

Gordon Dalbey também escreve em Healing the Father Wound (Curando a Ferida do Pai):
O pai chama para fora o elemento masculino no seu filho. Sem essa entrada essencial do pai, o filho não consegue se ver mais adiante como homem. Rapidamente, pavorosamente a lacuna entre a sua insuficiência como homem e a imagem do que deseja se tornar é tomada por vergonha. Entra, então, o pai da mentira (Jo 8.44), e promete cobrir essa profunda vergonha nos homens de hoje através de impulsioná-los a uma variedade de comportamentos compulsivos e dependências, que vão desde drogas e pornografia ao excesso de trabalho (conhecido em inglês como workaholism ou vício do trabalho) e legalismo religioso.

Nenhuma dessas coisas, porém, lhe dará o que não recebeu do pai.

Modelos Bíblicos
Pais omissos podem ser mais abundantes no nosso mundo moderno, mas não são uma espécie nova. Há vários exemplos bíblicos, notadamente o sacerdote Eli, que acabou reproduzindo sua paternidade omissa no profeta Samuel, que foi criado por ele junto ao tabernáculo (veja 1 Sm 2.12; 8.3). O que se nota nesses casos é a falta de uma característica essencial para que os pais passem aos filhos caráter e integridade: a disciplina.
A firmeza de convicções, a capacidade de dizer não, de exigir disciplina e caráter é uma função que Deus deu ao pai e que é essencial para gerar verdadeira hombridade. A grande falha do sacerdote Eli era de não repreender, com suficiente firmeza, seus filhos (veja 1 Sm 3.13 e 2.23). Foi também uma grande falha de Davi, pois, de acordo com 1 Reis 1.6, ele jamais contrariou seu filho Adonias, cobrando dele coisa alguma. Sabemos dos frutos amargos que Davi também colheu dessa omissão com outros filhos.
Por outro lado, Davi oferece um modelo positivo de paternidade ao passar sua visão de edificar a casa de Deus ao filho Salomão (1 Rs 2.2-4). “Sê homem”, ele lhe disse, ou seja: “Pegue a visão, cumpra o seu destino, deixe de lado outras coisas e realize a vontade de Deus”. Davi não só lhe passou o encargo, mas deu instruções, mostrou como fazer, providenciou materiais e encorajou-o para que tivesse confiança no cumprimento da grande missão (veja 1 Cr 22.6-19). Também o comissionou e o reconheceu diante de todo o povo e dos líderes de Israel (1 Cr 28.1-11, 20; 29.22-25).


É na paternidade de Deus que temos o modelo perfeito, exemplificado na Bíblia inteira, de como se deve agir, com amor, perseverança, aceitação, mas também com firmeza e convicção na disciplina. No Velho Testamento, ao mesmo tempo em que Deus tem amor e compaixão superiores a uma mãe humana (Is 49.15,16), ele jamais deixará de corrigir e disciplinar para o nosso bem (veja Êx 34.6,7 e Dt 8.16). No Novo Testamento, vemos Jesus, o Filho perfeito que agradava ao Pai em tudo, não sendo atendido na sua súplica de ser isentado do cálice amargo (Lc 22.42), porque o Pai tinha um propósito maior (Is 53.10) e não seria demovido, mesmo ao ver o sofrimento do Filho amado. Jesus tinha total confiança e segurança no amor do Pai (Jo 3.35; 10.17; 13.3), mas sabia que sua missão no mundo era mais importante que sua felicidade ou proteção pessoal.
Christopher Walker