Seguir homens, até quando?


“Ide à cidade, e um homem, que leva um cântaro de água, vos encontrará; segui-o”.
Marcos 14:13.

No contexto desse versículo, era tempo de Páscoa e, diferente da tradição que cultivamos hoje no ocidente, para o povo hebreu era um momento de memórias sobre a grande libertação de Deus da amarga e longa escravidão no Egito.

Naquele mesmo momento, Jesus enviou dois de seus discípulos mais fiéis - Pedro e João - com a missão de preparar um ritual especial que marcaria profundamente a alma de toda a cristandade em todas as gerações até os dias de hoje. O Mestre, reformador por essência e vocação, buscava um lugar onde pudesse ter um momento de intimidade com seus amigos, era a renovação da páscoa.

No caminho, vejam só, Jesus manda que seus discípulos sigam uma pessoa! Alguém sem nome, mas especial por ter em suas mãos algo notável. Um “homem com um cântaro d´água”. O que se sabe dele, apenas, é que não era alguém comum ser visto, até porque, ao que consta (me corrijam se estiver errado), tirar água do poço era prática comum entre as mulheres daquela cultura.

Fato é que aquele homem era alguém que, por algum motivo, se destacaria no meio da multidão e Jesus ordenou que seus discípulos o seguissem. Contudo, tal seguimento tinha começo e também tinha fim. Ele disse: “onde Ele entrar, entrem vocês também”. (Guarde essa informação que eu já volto a ela, lá embaixo).

Aquela Páscoa marcaria um outro momento na história espiritual do mundo, revelando uma nova visão acerca do sacrifício para a salvação dos homens. Para os cristãos habituados com esse ritual, talvez seja redundância uma tentativa de explicar sobre o que é a Santa Ceia do Senhor. Ainda assim, observo que o rito, apesar de ser assunto imenso e, mesmo reconhecendo que devam existir inúmeras linhas teológicas dentro do cristianismo definindo-a, quero compartilhar um pouco de minha visão sobre ela.

“Penso, particularmente, que o ritual remeta a uma nova instância de relacionamento com o Senhor, no Espírito, no qual em cada reunião erguemos um memorial que revela os preços e implicações do seguimento do Senhor. Através disso, acredito, Jesus pretende compartilhar um cálice um tanto amargo com os seus, através do qual deseja revelar suas dores e desafios aos seguidores de sua visão. Esse chamado à intimidade aponta no sentido de um compartilhamento de proporções profundas e sempre dolorosas. Ele remete ao sacrifício fatal da Cruz, o qual, ao contrário do que se prega em ‘empórios evangélicos’ espalhados pelas esquinas das cidades, estar em Cristo é algo que custa muito caro. Ser seu amigo e discípulo, beber seu sangue e comer seu corpo, significa ser alguém disposto a ir até as últimas conseqüências por amor a Ele. Sua intimidade não se limita a uma vida ritualista, obviamente, e comer e beber de Cristo consiste em partilhar com Ele do mesmo prato, beber do mesmo copo, sofrer as mesmas dores, chorar as mesmas lágrimas e também sorrir com as mesmas conquistas, enfim, compartilhar a vida em comunhão profunda”.

Não vejo intimidade de outra forma, aliás, intimidade com Jesus é algo bastante complexo e envolve, segundo podemos notar no próprio texto, momentos de confronto, transparência e sinceridade que contrariam a experiência de igreja-mercado, onde passamos despercebidos no meio da multidão, mascarados em falsas piedades que ocultam nossas intimidades. Foi nessa circunstância que Judas foi desmascarado!

O pão partilhado é símbolo de alimento físico e espiritual e na intimidade com Cristo todas as nossas necessidades são supridas; no vinho, símbolo do sangue, está a marca da aliança e da vida divina de Jesus e, ao compartilhar isso conosco, Ele nos dá acesso ao Espírito Santo com todas as suas virtudes, o vínculo de amizade e compromisso, uma adoração além de canções e uma oração além de palavras, linkadas diretamente com o sobrenatural. Sem essas características, nossas reuniões não passam de momentos recreativos.

Mas para chegar até esse lugar, Jesus ordenou que seus discípulos seguissem a outrem. (O homem com o Cântaro d´água - voltamos a ele).

Ele disse: “sigam o homem com o cântaro de água e onde ele entrar vocês também devem entrar”. Mas quem era aquele homem?

Imagino que o “homem com o cântaro de água” foi alguém que recebeu uma porção de revelação diferenciada da parte de Deus com a finalidade de conduzir as pessoas até o lugar de sua intimidade em Cristo. Alguém que possui um dom, um talento e uma chama extraordinária que atrai as pessoas até si, devendo conduzi-las à comunhão íntima, direta e pessoal com Jesus.

Hoje, ele pode ser um evangelista com dons de curas ou milagres, um profeta com capacidade de interpretar direções sobrenaturais e apontar os erros de alguém ou de uma geração da igreja, gerando arrependimento; pode ser ainda um mestre, com profunda revelação acerca das Escrituras, ensinando aos discípulos a andarem em conformidade com a genuína Palavra.

Essa pessoa é um servidor destacado entre o povo para ensinar e preparar a Igreja a andar em intimidade com Jesus. Em todas as gerações da Igreja na terra, o Senhor envia pessoas assim, dotadas de qualidades especiais com a missão de conduzir ovelhas até o cenáculo.

Todavia, um fenômeno de ocorrência comum entre nós tem sido o de que muitas pessoas enveredar por um ciclo interminável andando atrás de algum homem super-ungido, nunca chegando à intimidade com Jesus.

Devemos entender que o homem com o cântaro de água não é o fim, ele é um meio, um condutor apenas e que o alvo é Jesus, numa relação direta, sem mediadores. Não se iluda ou se encante com seu super líder, entre onde ele entrou, vá além, suba a um novo andar, leia o texto inteiro com carinho e deixe que o próprio Jesus o conduza na jornada da intimidade. Grandes homens com grandes talentos devem ser estímulos para nossa busca e não entraves! Devemos ter neles figuras heróicas e modelos de inspiração e nunca ídolos em um altar.

Rafa Reparador

Será que Deus está ao lado de sua Igreja?


“Levantando os olhos, viu diante de si um homem de pé, com uma espada desembainhada na mão. Josué foi contra ele: És dos nossos, disse ele, ou dos nossos inimigos? Ele respondeu: Não; venho como chefe do exército do Senhor”. Josué 5:13-14.

Esta palavra acima eu ouvi certa vez dos lábios de um querido pastor do Rio Grande do Su - meu amigo Enoque - e confesso que fiquei bastante impressionado e até os dias de hoje, ela tem me ajudado a desenvolver novas perspectivas sobre o relacionamento de Deus com os institutos humanos.

Não é uma surpresa!? Josué, líder máximo da Nação Eleita, se depara com um enviado de Deus que diz não estar do lado nem de Israel, nem de seus inimigos. O que isso significa? Seria uma base para pensarmos acerca de uma neutralidade de Deus com relação às instituições?

Eu sempre desconfiei que Deus não se submeteria a partidos que se formam sob seu signo, ou mesmo a ideais e movimentos que levam seu nome, ou que estejam baseados nos escritos bíblicos. Deus não é um refém de Bíblia, não foi refém de Israel e também não é refém da igreja cristã, em nenhuma das suas milhares de ramificações.

Deus é Deus!

Vimos na história, desde tempos remotos até recentemente, exércitos lutarem carregando a bandeira de Deus, ou do cristianismo. Numa guerra, toda força é bem vinda, sobretudo, se pudermos dizer pros soldados que o Criador de todas as coisas está ao seu lado.

Observou-se a igreja evangélica brasileira marchando sob hinos de guerra, bradando essa convicção durante décadas. Atravessando diversos movimentos, em vários momentos, evangélicos do Brasil convenceram-se de que nada pode detê-los, pois Deus está ao seu lado.

Hoje, mais que em qualquer outro momento, os resultados expressivos dessa igreja demonstram um quadro de total sucesso desse grupo. Pequenas igrejas são fundadas sobre alguma visão e, algumas delas, se tornam em pouco tempo grandes impérios eclesiásticos, que chegam a incluir a posse de meios de comunicação, aviões, gravadoras etc.

Mais do que nunca, alguns podem estar convictos e dizer: “Deus está do lado da igreja!”, no entanto, não são resultados, vitórias, conquistas, números positivos, espaços maiores na TV, eleição de políticos e arrecadações volumosas que demonstram o favor de Deus.

Afinal, ao lado de quem está Deus, segundo pode-se interpretar pela Bíblia?

O Salmo 34:18 diz que “o SENHOR está perto dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” e Isaías 57:15 diz: “Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é santo: "Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e novo alento ao coração do contrito”.

Em contraste, observa-se que a Bíblia dá base para o entendimento de que os soberbos são rejeitados por Deus. Ao menos, três textos declaram esse princípio abertamente, veja:

Se ele escarnece dos zombadores, concede a graça aos humildes.
Provérbios 3:34; Mas ele nos concede graça maior. Por isso diz a Escritura: "Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes" Tiago 4:6 e “Sejam todos humildes uns para com os outros, porque ‘Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes’”. I Pedro 5:5.

Em todos esse textos, o que vejo é um detalhe muito claro pra mim: Deus está olhando diretamente pra indivíduos e não pra coletivos

Por fim, é patente que Josué tinha tudo pra crer na total “fidelidade” de Deus com relação ao seu exército. Todas as provas do passado estavam ao lado dele e de seu povo. Moisés era um grande homem de Deus e havia lhe deixado um legado e uma bênção pública. No entanto, o Anjo de Deus vem e lhe diz: “eu não estou nem do seu lado, nem do lado dos seus inimigos”.

Acredito que o favor de Deus está esteja entre os humildes, os abalados, os pobres, os carentes e que muitos engomados, abarrotados de sucesso, portadores de carrões e resultados aparentemente positivos esqueceram-se de cuidar para não cair.

P.S.: "Aqueles que anunciam que lutam a favor de Deus são sempre os homens menos pacíficos da terra. Como crêem receber mensagens celestiais, têm os ouvidos surdos a qualquer palavra de humanidade." Stefan Zweig

Rafa Reparador

Entre a cruz e a espada


“Não cuideis que vim trazer a paz à terra: não vim trazer paz, mas espada: porque eu vim por em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra. E, assim, os inimigos do homem serão os seus próprios familiares. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz e não segue após mim não é digno de mim. Quem achar a sua vida irá perdê-la; e quem perder a sua vida por amor de mim irá achá-la”. Mateus 10:34-39.

Jesus, embora denominado profeticamente como o Príncipe da Paz, no cumprimento de sua missão de trazer a Paz de Deus aos homens deparou-se com a inevitável realidade do confronto direto com as estruturas de pensamento religioso. Estruturas naquele tempo enrijecidas pelos interesses institucionalistas e tradicionalistas fomentados por dinastias humanas que formavam reinos tiranos sob o manto de sacerdócios oficiais.
No texto acima, que registra as palavras do Mestre, um quadro cheio de conflitos é pintado e pode se tornar realidade na vida de qualquer um que deseje de fato seguir ao Senhor Jesus de todo coração. Vejamos:

1) A Espada!

“Não cuideis que vim trazer a paz à terra: não vim trazer paz, mas espada: porque eu vim por em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra”

A carta aos Hebreus define a Palavra de Deus como viva e também como uma espada afiada, portanto, creio que todos nós temos como ponto pacífico da Escritura essa compreensão sobre a Palavra cortante e que faz separação das coisas da alma das do espírito.

No entanto, ver Jesus dizendo que não veio trazer paz é uma afirmativa um pouco mais complexa de engolir. Lá na Carta aos Romanos 5:1, está escrito que “ao sermos justificados dos nossos pecados pela fé, temos paz com Deus através de Jesus”.

Há um paradoxo bíblico, não?

Num texto, fala-se sobre a paz restaurada pela quebra da maldição do pecado, que fazia separação entre nós e Deus, ou seja, alcançamos a paz por intermédio do sacrifício do Filho.

Já no outro caso, Jesus fala sobre um choque que se tornaria comum por causa da revelação de sua Palavra Viva - a Espada - que Ele afirmou ter trazido até nós.

Há aqui a manifestação de uma ação que quebra a paz entre os homens, que causa discórdia e controvérsia. Quando Ele diz que não veio trazer paz à terra, fala da paz superficial, permeada por cinismo em relações firmadas nos interesses humanos. Esse tipo de paz que garante a solidez de alianças firmadas em conchavos institucionais, que nada tem a ver com a paz promovida por Jesus, tratando-se de uma paz meramente política e mundana. Lembre do que Ele disse em outra ocasião: “Deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou; não vô-la dou como o mundo a dá”.

2) Quando os familiares são os inimigos

“E, assim, os inimigos do homem serão os seus próprios familiares”.

O debate teológico entre “pais e filhos”, dentro das relações do Corpo de Cristo, tem sido motivo para a criação de muitas visões e denominações cristãs que se espalham por todo o planeta. É natural que embates teológicos sejam fonte de divisões no seio da igreja e se podemos ver os malefícios disso, é certo que podemos ver os benefícios que essas discussões trazem para a continuidade do fluir do Espírito sobre a face da terra.

Deus se move de maneira poderosa através dos obedientes e disponíveis, os malucos que se entregam de forma incondicional ao chamado. É através dessa loucura, um sentimento de impulsão que coloca muitos sonhadores numa linha de atitude que se choca frontalmente com os pensamentos daqueles que já estão em busca da aposentadoria sacerdotal.

O fato é que as gerações se estabelecem e se acomodam com o tempo. Muitos chegaram no status “agora vou descansar e desfrutar um pouco do que construí!” Isso é algo natural na vida do ser humano e pode ser até justo, mas o Reino não para!

O Senhor está sempre indicando novos rumos na vida da Igreja por causa da apostasia de alguns líderes, promovendo mudanças fundamentais para que o fluir do Espírito não cesse na terra. É isso que gera muitas guerras entre as gerações da Igreja, mas esse desentendimento deve ser encarado, a meu ver, como algo natural na linha do tempo, pois vindo o vinho novo, muitos tradicionalistas irão preferir o velho. Contudo, os jovens irão buscar o novo, pois isso é natural ao espírito de ousadia que Deus derrama sobre os seus ungidos e é aí que mora a inimizade e a incompreensão entre as gerações.

3) A visão acima de todas as coisas

“Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim”.

A demonstração mais clara de nosso amor por Jesus é a obediência à revelação que Ele nos dá. Aliás, em João 15:14 isso fica bem explícito: “Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu mando”. Quem quer gozar da plena e contínua amizade de Jesus em sua vida, deverá fazer disso um princípio inegociável durante toda sua existência terrana. Só assim, com esse amor radical, seremos capazes de ir até as últimas conseqüências no rumo da visão revelada pelo Mestre a cada um de nós e, se não formos capazes de enfrentar os embates domésticos para defender nosso posicionamento, certamente não seremos dignos de ir adiante no chamado.

Não é uma guerra de intolerância entre pais e filhos ou uma mera defesa de pensamentos filosóficos. Não é disso que estamos falando aqui e nem podemos nos deixar levar por esse sofisma. Essa é uma atitude séria e que traz consigo muitas responsabilidades, devendo ser tomada a partir de uma mentalidade renovada e convertida à vontade de Jesus. Uma espécie profunda de morte do “eu”!

4) A Cruz!

“E quem não toma a sua cruz e não segue após mim não é digno de mim. Quem achar a sua vida irá perdê-la; e quem perder a sua vida por amor de mim irá achá-la”.

A Cruz é símbolo de sofrimento, morte, vergonha, zombaria, rejeição e renúncia pessoal. Quando o crente toma a sua Cruz e segue a Cristo, nega-se a si mesmo e decide abraçar Suas lutas e sofrimentos. Luta até o fim contra o Sistema de Mentiras que governa este mundo e que rege os pensamentos humanos.

Esta é uma obra terrível para quem assiste, impossível de ser compreendida pelos que não a vivenciam, justamente porque elas acusam as obras más do mundo com seus padrões e filosofias egoístas.

Tomar a Cruz e seguir a Jesus significa se embrenhar no Renovo, naquilo que ninguém é capaz de entender se não sofrer o mesmo impacto que você. Em contrapartida, muitos olharão para o espetáculo, vendo lutas e trabalhos árduos por algo que aparentemente não dá resultados e pensarão que seria muito mais fácil seguir pelos caminhos confirmados pelo tempo. Mas Jesus diz que quem encontrar sua vida, irá perdê-la. Quem quiser simplesmente vencer neste mundo e ter excelentes resultados com a aceitação da maioria, poderá estar andando num caminho muito próximo de perder tudo no que diz respeito à eternidade. Por outro lado, quem perder tudo o que aqui é oferecido como padrão de sucesso e êxito, em nome da Revelação da Jesus, irá conquistar o mais sublime dos tesouros.

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Há uma verdade! Mas há um preço a ser pago por ela. Muitos homens estão atrás do segredo do sucesso, do pulo do gato e pagam somas grandiosas por livros, palestras e qualquer coisa que possa lhes legar o conhecimento que conduza ao tão almejado sucesso.

Sempre haverá os que querem ganhar a vida aqui neste mundo, ficando com a herança dos pais e seguindo por caminhos já trilhados. Mas também haverá os que querem encarar a loucura da Cruz, trilhando o caminho novo, vivo e estreito, o Renovo. Vendo o que ninguém ainda viu, andando na novidade que Abraão perseguiu, partilhando da bênção de ser portadores da fé sobrenatural, em busca de um prêmio que o próprio apóstolo Paulo disse ainda não ter alcançado, mas que o perseguia.

Entre a Cruz e a Espada há uma escolha a ser feita. Escolha o seu rumo, tenha esperança do prêmio que melhor lhe parecer e boa caminhada!

Rafa Reparador

Partido da Igreja


“Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos”. Filipenses 2:3

Nos tempos de Jesus, sob uma realidade fortemente influenciada pela tradição teocrática, havia diversos partidos que relacionavam política, sociedade e teologia. Herodianos, fariseus, saduceus, escribas... Além desses e outros, existia também os ‘xiitas’ da época, que podem ser praticamente considerados os tataravôs dos homens bomba da atualidade, os chamados zelotes e os sicários (estes com representantes entre os discípulos de Jesus).

Partidos, denominações, agrupamentos, coligações, grêmios, tudo isto são formas de fortalecimento social que visam dar corpo e representatividade aos ideais. Foi o Raul quem cantou que “sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade”. Enfim, agrupar é um caminho óbvio na busca de trazer à realidade o objeto dos sonhos de alguém, ou de alguns.

Em contraste a esse modelo vejo, na coletividade da Igreja Viva, um viés intimamente relacionado ao da vida em família, marcado por amor fraternal, objetivos comuns, geração, criação e desenvolvimento de filhos, irmãos, pais, mães, primos.

Isto é bem diferente de um partido!

Um partido, como o próprio termo sugere, é uma parte de um todo, ao contrário da família que é o todo numa pequena partícula. Quando se é um partido, se tem uma perspectiva ideológica predeterminada na qual todos, estatutariamente, são obrigados a seguir e sob a qual devem rezar uniformemente. Caso transgrida, o rebelde é logo punido, talvez excluído do grupo.

No ideal da família, tudo é agregado, inclusive as diferenças. As batalhas de um são as de todos e os pecados de um são suportados e perdoados por causa do vínculo maior que sobrepuja as falhas do indivíduo: o amor, que atua a favor da unidade. Na família, a regra maior não é o estatuto, não há presidente, não há secretário, há simplesmente a Lei Maior fluindo, o respeito e o reconhecimento da autoridade de um líder. Este, alguém responsável por manter uma ordem, sendo protetor, provedor, amigo e mestre (minha ideia de pastor).

Numa família, todos se reúnem na sala de jantar, onde podem se olhar nos olhos, onde um conhece o som do ronco do outro enquanto dorme e também o cheiro e os barulhos do outro, quando chega em casa. Identificam suas manias, virtudes e defeitos.

Acredito mesmo que a ideia original de igreja é baseada na família, onde tudo é operado pela força de uma aliança firmada no sangue, na qual, uns pertencem geneticamente aos outros.

É bem diferente de um partido com ideais cristãos, cujo pastor ou apóstolo preside uma associação da sociedade civil, com registro em cartório, CNPJ e logradouro, que batalha pela defesa de sua opinião e de seus valores a fim de influenciar a sociedade ao seu redor. Assim sendo, não difere de uma loja maçônica, uma ong, uma associação comunitária ou um sindicato.

Acredito na nobreza de se lutar pelo que acredita, de desejar compartilhar com a sociedade valores cristãos. Contudo, acredito que devemos dar grande atenção para o risco de perdermos, como Igreja, nossa identidade de Família Cristã, que é um ente profético e peregrino que, por ora, vive neste mundo.

O profético nunca está comprometido com uma parte, mas sempre com o Todo. O profético não se filia a uma parte, o profético nasce de Deus e vislumbra o Plano Eterno. O profético não é um candidato esperando receber o voto de confiança de uma liga de correligionários, unidos por uma causa humana e transitória. O profético pertence a Deus e aqui está por uma causa maior do que a mente mais sensível poderia vislumbrar.

Temos como modelo de uma atuação não partidária e profética, na história Jesus, que abriu mão de provocar mudanças sociais, ou mexer em estruturas humanas ao seu redor, apesar de injustas, mas transformou pessoas, vidas.

Acredito que a Família Cristã nasceu de forma (sobre) natural, a partir do amor e da visão de Jesus. Acredito que ela está aqui entre nós, como os antigos guardiões do ‘fogo’ e que seja muito menor do que os partidos que se formaram em torno de infinitas denominações cristãs. Acredito que a Igreja de Jesus é invisível, mística e o que se pode ver e experimentar dela são os ecos das virtudes da eternidade. Acredito que a grande maioria dos auto denominados cristãos não passam de correligionários que abraçaram uma causa conectada a seus ideais existenciais e isso está longe de significar novo nascimento.

Enfim, a Igreja não é um Partido!

Rafa Reparador

O ídolo do Livro


Para cristãos, Jesus é a Palavra, afirma-se. É nEle que está contida toda revelação necessária para que o crente seja nutrido em sua espiritualidade. Ele é o Caminho e a Verdade e a Vida, a verdadeira e eficaz religião, único mediador entre os filhos e o Deus-Pai, não havendo a possibilidade de que qualquer outra pessoa, no céu ou na terra cumpra essa função.

Temos como principal ponto de revelação de Cristo sua Mensagem, a qual foi trazida até nós por sua pregação, a qual promoveu uma passada que oralmente foi passada e, por fim, registrada em forma escrita.

A partir dessa escrita, diversos pergaminhos foram juntados e assim foi consolidada a Bíblia, um Livro de tradições que compreende os ritos judaicos e também os cristãos, canonizados por uma junta de cristãos notáveis em seu tempo, sob a ordem do imperador romano, auto aclamado sucessor de Pedro na liderança da religião cristã, Constantino.

Voltando ao presente, dia desses, diante de uma reflexão que compartilhei em meu blog, fui interpelado severamente por um pastor evangélico que disse, sem o menor, constrangimento: “irmão, pela perspectiva da Bíblia, pela lógica da Bíblia, você está errado”.

Uau! Ser enquadrado assim, de forma tão veemente, implacável e absoluta, não me dá a menor chance de debate, pois o irmão se colocou numa posição tão superior à minha que, tal como um Papa inquisidor, não concedeu a menor oportunidade de defensa ou questionamento e, embora tentasse, fui sumariamente excluído de seu rol de amigos no Facebook, simples assim.

No entanto, duas perguntas que não calaram dentro de mim desde aquela ocasião foram: “qual é a lógica da Bíblia? E: quem a detém?”

Presenciamos e vivenciamos nesta geração um festival sem fim de revelações e doutrinas conflitantes entre si. Denominações evangélicas nascem todos os dias com a mesma velocidade do crescimento dos evangélicos no Brasil. Somente esse fato já deveria ser o bastante para provar que a Bíblia é inexoravelmente relativa!

Calma, pare, pense um pouco. Não quero ferir seu ídolo, só quero compartilhar uma nova forma de fazer a leitura do Sagrado!

A Bíblia pode estar certa, mas também pode estar errada, à medida que depende de interpretações humanas para ser decifrada, estando submetida à inteligência, ao humor, aos ‘revelamentos’ transitórios e às revelações proféticas determinadas para tempos, eras, conjunturas etc.

Como peça literária, a Bíblia não tem em si vida própria e não pode ser inerrante, como alguns gostam de bradar. Sendo um objeto físico, com letras humanas, tendo sido gerada aqui na terra através da lente da ideia, cultura e tradições de homens comuns (inspirados por Deus, sim), sendo uma coleção de livros que narram a história e os acontecimentos de povos de Deus, mas que não são o próprio Deus.

Se existe uma lógica da Bíblia, obviamente essa lógica deveria - em minha opinião - determinar que o poderoso Deus não cabe num Livro, por maior e mais sábio que seja. Não existe a menor possibilidade dela conter a Deus, embora todos os crentes reconheçam que Deus se revela através dela.

Vou além, considerando que tal lógica além de limitar a ação de Deus ainda passa a constituir uma prática de idolatria, pois procura dar uma forma para o Todo Poderoso, o que é proibido pela mesma Bíblia. Ou seja, tentar formatar a pessoa mística de Deus é pecado, pois Deus é Espírito e não tem forma de coisas humanas, entre elas, letras.

Acredito que a única forma de dar vida à Palavra literária é desenvolvendo uma relação particular, íntima com Cristo, que é a Chave para toda revelação. É essa chave que abre, não somente o Livro, mas também nossas mentes, lançando a Luz da Verdade para que possamos contemplar sua sabedoria. Fora disso, qualquer revelação humana consiste em acender pequenas e fracas faíscas, iluminando apenas como tochas nas mãos de um homem qualquer, que anseia liderar algum movimento, na presunção de deter em sua perspectiva particular os conhecimentos da “lógica da Bíblia”.

Eu já li e ouvi muitos homens! Já ouvi Malafaia, Watchman Nee, Ellen G. White, T.L. Osborn, Irmão Rubens, Morris West, Benny Hinn, Caio Fábio, Carlos Mesters, Leonardo Boff, C.S. Lewis, Tozer entre inúmeros outros teólogos. Obviamente todos compartilharam comigo perspectivas, algumas delas profundamente conflitantes entre si, mas observar isto foi de grande valor para a construção de meus conhecimentos.

Importante ressaltar que essa é a minha perspectiva, tal como a de muitos outros, com as quais acredito ser capaz de conviver, tendo buscado conviver e, embora possa enxergar diversos aspectos teológicos de forma diferente, acredito ter as bases fundamentais de minha fé cristã bem definidas e solidificadas na pessoa de Cristo, o que me basta.

Foi a partir da leitura que fiz da Bíblia que me encontrei comigo mesmo e me horrorizei com o que vi, mas logo depois fui lançado num mar de graça e aceitação. Aliás, foi ela própria que me proporcionou entendimento suficiente para fazer da religião institucional algo completamente descartável em minha vida, bem como seus literalismos e catecismos maniqueístas, que visam, como qualquer outra instituição desse Sistema de Coisas, manipular.

Creio que a melhor saída para uma leitura eficaz da Palavra Escrita é procurar estar ligado na pessoa de Jesus, que vive e está entre nós por seu Espírito, falando continuamente a cada filho e filha de Deus. Ligados diretamente à Videira e não estando restrito aos ramos farisaicos, com seus pedágios, estamos aptos a receber a seiva pura que promove vida abundante. Daí, confio, a Palavra possa se tornar em Vida e Amor e não em Morte e Ódio, como tem sido pra muitos.

Rafa Reparador

Apóstolo Paulo, Renato Russo e a arte secular


“Quando o sol bater na janela do seu quarto, lembra e vê que o caminho é um só”. Renato Russo

É surpreendente ver, ouvir e sentir as pedras clamando. Quando pessoas que - supomos - não têm o mesmo esclarecimento de consciência dos que renovados pelo Espírito Santo, ou seja, os crentes, são usadas em sua arte como boca de Deus diante dos homens.

Na falta de uma expressão que sobrepuje as fronteiras da religião, parece que Deus se vê na obrigação de usar alguém de fora para falar com o mundo.

O afastamento da igreja com relação ao resto da sociedade é tamanho, que é possível notar o Senhor utilizando outras pontes que ligam sua Palavra às mentes obscurecidas.

As palavras lá de cima do texto, de autoria do grande poeta Renato Russo, que com algumas de suas canções parecia tentar evangelizar sua geração, tendo intensamente difundida uma arte que demonstrava desespero por um Caminho de luz.

Antes que seja punido com o fechamento implacável desta janela, gostaria de notificar aos nobres leitores que encontro paralelo bíblico para citar poetas seculares, os quais com sua arte, profetizavam da parte do próprio Deus, desconhecido teologicamente, mas ansiado em seus espíritos sedentos e famintos.

O texto de Atos 17:28, que diz: “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração” é um apanhado de frases dos poetas gregos Epimênides e Arato, ou ainda de Cleanto.

Parece que o apóstolo Paulo tinha a sensibilidade de perceber a busca religiosa por dentro das manifestações poéticas e artísticas daqueles poetas 'pagãos'.

Inclusive, Paulo cita o poeta Epimênides pelo menos uma vez mais, na carta que escreveu a Tito.

Sei que pode ser difícil de engolir para uma mente mais purista, esterilizada por um modelo de santidade sectarista que alguns evangélicos adotam neste tempo, mas o fato de que o apóstolo Paulo recorreu a leituras pagãs e, pior, as citações dos tais poetas não cristãos estão registrados no Cânon das sagradas Escrituras.

Vejo a manchete: "Bomba, bomba!! Parece que Paulo ouvia música secular e ainda colocou suas letras no cânon sagrado!"

Será que apóstolo Paulo também buscava inspiração na música secular de seu tempo?

Gostaria muito que esta verdade pudesse lançar em cada crente uma reflexão capaz de libertar de uma vez por todas da mentalidade sectária e excludente que tomou conta de muitos ramos da igreja evangélica moderna.

Irmãos, a arte é uma bênção, uma dádiva cuja origem se encontra no próprio Deus. Ouvir música secular, ler poesias, assistir filmes, adquirir cultura, tudo isto pode nos tornar melhores e mais profundos em nossa compreensão de Deus, o qual é o autor e também o doador de todo dom artístico humano.

Em alguns cultos já se cantam músicas seculares e vem se aproximando um momento em que a música cristã se tornará mais identificada e adequada a realidade artística do mundo secular. Uma música que vá de encontro aos anseios do coração humano, que lance luz e direção aos perdidos.

Espero um dia, ver cristãos alcançando o coração das pessoas e as influenciando com a mesma eficiência do 'ímpio' Renato Russo.

Rafa

Vendendo a alma pro diabo


Essa semana, o cantor gospel Thales postou na internet a foto do contrato que assinou com a Graça Filmes para rodar um longa que contará seu testemunho.
Aleluia! Como se não bastasse a Babilônia do mercado fonográfico gospel, agora querem erguer uma “Holy-Gospel-Wood” aqui no Brasil.
Nosso país chega às portas do mundo encantado das potências mundiais trilhando um caminho curiosamente paralelo entre crescimento econômico e crescimento de evangélicos. É um paradoxo encantador, um tema que cabe teses de antropologia e até de teorias da conspiração.
Pode-se dizer que o crescimento é resultado das orações dos fiéis filhos de Deus; que os atos proféticos estão finalmente fazendo efeito... afinal com o número crescente de conversões, é óbvio que o país seja beneficiado, pois, a nação cujo Deus é o Senhor é feliz. Né? Que o diga Israel, lá é que é bom...
No entanto, a miopia religiosa que acomete os correligionários do mundo gospel gera essa lastimável sensação de crescimento e de conquista de território, o que na verdade não vem redundando em justiça social, mudança de caráter, arrependimento.
Pelo contrário, a nação padece sua maior crise moral em todos os tempos e a instituição igreja evangélica está intimamente irmanada nesse contexto sórdido. Quem tem olhos, vê!
Voltando ao assunto do produto Thales, que é um broto natural dessa planta híbrida que contém na sua genética um pouco de egito, babilônia e igreja cristã, vi na foto do tal contrato, uma espécie de sinal desse momento que vivemos. Pensar que Graça Filmes é uma empresa que trata dos negócios da Igreja de Cristo é a mais pueril das inocências e, tal como qualquer outra gravadora ou produtora que adentram à cena gospel, seu objetivo final é apenas um: $! Ou você acha que Som Livre, Globo e Sony Music têm uma visão celestial para o Reino de Deus ser implantado na nação eleita Brasil?
Como crente que sou e músico também, resta-me observar - que é, aliás, o que mais tenho feito em todos esses anos de fé – e ver a derrocada moral, ideológica e da fé da música e arte cristã no Brasil. Um reflexo natural da queda da própria instituição igreja evangélica brasileira! Idealista escatológico que sempre fui, vejo que sempre soube lá no meu interior que esse era o caminho: primeiro você vende a alma pro diabo, que é o sistema humano baseado na cobiça, ganância, dinheiro (a marca da besta na atitude e na mentalidade de nossa geração), depois, quando você quiser fazer valer seus ideais interiores, o diabo puxará o seu tapete. Cris Batiston - Filhos do Homem o diga!
Daí, é a hora do cara resolver se volta ou fica onde está!
Cris é um bom homem, assim como o Thales deve ser, mas é muito duro quando o irmão assina o contrato e assassina a vocação!

Rafa

Uma pérola holandesa!!

Paradoxo entre o Velho e o Novo


"E ninguém, depois de beber o vinho velho, prefere o novo, pois diz: ‘O vinho velho é melhor!’” Lucas 5:39

Em diversos assuntos da vida, quando algo é colocado de uma perspectiva que não seja a usual ou tradicional - entenda ‘tradicional’ por sua força semântica, ou seja, aquilo que foi transmitido – um processo é desencadeado no interior de cada pessoa.

Para muitos, a primeira reação que se tem é a do choque, revelado exteriormente apenas pelo franzir da testa do que resiste. Logo depois, a desconfiança começa a tomar conta do cidadão que, cruzando os braços demonstra desconforto diante do discurso, seja lá qual for ele. É a partir desse instante que a mente se fecha, a audição trava e o cérebro começa a ser inundado por informações que municiam o camarada para o debate de idéias. É bem semelhante ao processo do corpo, reagindo ferozmente à invasão do corpo estranho, só que ao invés de anticorpos, são ‘antidéias’.

O coração acelera, tal como o de um guerreiro que se prepara para a batalha e, pela completa necessidade de manter-se de pé em seus conceitos, o instinto de vida das velhas idéias provoca a perda total da capacidade de avaliar a situação com maior amplitude. Sendo assim, é impossível a assimilação de novas possibilidades porque tudo o que interessa naquele momento é a sobrevivência de sua mentalidade, de suas tradições e de seu conjunto de preconceitos.

Jesus foi um mestre na arte de chocar! Escandalizou e ainda escandaliza ao transformar água em vinho e estender a festança nas Bodas de Cana; chocou sua época ao deixar vir até ele as criancinhas (seres menores), bem como se deixar tocar e se relacionar de forma igual com mulheres; foi além também ao debater de igual pra igual com gente de outras etnias (os gentios, sem raiz, sem procedência). Sobretudo, Jesus, “o beberrão” foi o grande reformador da Boa Nova, fazendo novas todas as coisas a partir da Velha Lei, estendendo o braço salvador de YHWH aos povos mais distantes e menos imagináveis. Sua obra é tão avançada e tão sublime que até os dias de hoje a cristandade avança em suas diversas óticas teológicas, em busca da revelação correta, mesmo sem nunca conseguir alcançar (embora, alguns presumam tê-lo feito).

A evolução se comprova geração após geração quando novas linhas, primeiramente proféticas e logo depois apostólicas, estabelecem suas perspectivas, formando novas visões, teologias e doutrinas proporcionando novas escolas de cristãos, devidamente adequadas ao seu tempo.

Esta é, para mim, a prova de que a Palavra nunca se esgota, de que há sempre novos prismas sendo descobertos e que, em cada geração, a Aliança se revela em novas nuances.

Pense, se o Antigo Testamento transcorreu em várias alianças, movimentos, avivamentos e despertamentos, a Nova Aliança também transcorre da mesma maneira, dando continuidade à lógica divina de se revelar ao Homem de cada Tempo.

Para isto, é necessário que haja uma predisposição ao Novo e o abandono de uma mentalidade belicosa em relação a opiniões e perspectivas diferentes. Não se trata de ser frouxo ou de se abandonar o escudo da fé e a espada do espírito, mas sim de se adequar ao que deve ser vivido dentro de um novo tempo.

Vivemos numa época em que é imprescindível que se adentre a uma dimensão espiritual profunda na meditação da Palavra. A Bíblia não pode mais ser instrumento literal, provendo apenas frágeis regrinhas de Escola Dominical, como se as mesmas fossem absolutas armas para encarar a vida. Não somos mais crianças!

Quando Paulo dizia que “quando era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança, mas que desde o momento em que se tornou homem, eliminou as coisas de criança”. I Coríntios 13:11.

Isto ele falava interpretando que o amor é o ápice da doutrina, o cume mais elevado da espiritualidade cristã, a mais poderosa Lei de Deus em Cristo.

João assevera que “quem não ama, não conhece a Deus” e o próprio Jesus exclamou: "Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros”. João 13:34.

Veja bem, esta é a novidade: “o amor” o “novo mandamento que nos deu”.

O amor é paciente, bondoso, não tem inveja, não se vangloria, não se orgulha,
não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade,
é sofredor, crê em tudo, tem toda a esperança e suporta tudo”. I Coríntios 13:4-8.

Concluindo, o escrito de Hebreus diz que “chamando ‘nova’ esta aliança, tornou antiquada a primeira; e o que se torna antiquado e envelhecido, está a ponto de desaparecer”. Hebreus 8:13.

Irmãos, o velho logo desaparece, ou seja, deixa de ter valor, torna-se irrelevante, não choca mais, não causa mais espanto, nem atrai as pessoas. Estar na vanguarda dos acontecimentos do Evangelho neste tempo significa estar atento ao profético, ao novo.

‘Se liga’ no que o Espírito está novamente dizendo às igrejas!

Rafa

Evangelho simples?


Em meio às discussões, sempre há quem brade: irmãos, por que tanta divergência, por que tanta polêmica? Evangelho é tão simples!

Não sei de onde tiraram essa idéia de que o evangelho é simples. Da Bíblia não foi, lógico, pois na Bíblia, o evangelho é uma grande e complexa trama de idéias sobre a qual devemos empreender grande esforço para conectar umas as outras. E se ultrapassarmos suas linhas, adentrando a história da igreja na Terra, então, tudo o que se pode encontrar são divergências e mais divergências, além de uma gama enorme de injustiças cometidas em nome do próprio evangelho. Nada simples, mas muito complicado!

Agora, falar que Jesus era simples, isso sim eu concordo! Nele e através dele, o Evangelho foi e, confio, ainda é simples, muito simples. Jesus viveu neste mundo praticamente flutuando, sem estar atrelado a qualquer sistema de poderes, a qualquer hierarquia social. Jesus tinha uma missão profunda em seu coração, fundamentada numa lei magna que dava todo o respaldo para suas atitudes, muitas delas, consideradas heréticas.

Talvez sua simplicidade residisse no fato de que ele nasceu praticamente morto pro mundo, abortado para as concupiscências desta terra e, por essa razão, nada poderia corrompê-lo.

No entanto, aquilo que se construiu sobre Ele e suas palavras, quebraram e vêm quebrando a simplicidade geração após geração.

Quando transformamos a piedade, mensagem e passos de Jesus em um sistema religioso estamos construindo, na verdade, uma grande Babilônia, filha de Babel com enormes requintes de confusão lingüística! Combato essa realidade, pois vivi muitas dessas situações e com o tempo, emergi, não me perdi, como alguns podem pensar, mas acabei concluindo que não me identifico com essa igreja evangélica que se consolidou através das propagandas sofismais. Não acredito nela, pois não fala nada ao meu coração, não sinto o amor do Pai nela, só a vara de um padrasto opressor, ao qual dão o nome de cobertura; nem a Graça do Filho, senão leis apregoadas por mediadores humanos, que pra nada mais servem além de aplacar a consciência pecadora através de rituais; tampouco a influência do Espírito, mas somente um vento soprado dos pulmões humanos e pequenos feixes de luz oriundos de ‘revelamentos’ particulares.

Hoje, é difícil encontrar nessa igreja evangélica algo além de espiritualidade paganizada, baseada em trocas, na qual, pastor, apóstolo ou profeta vende e povo compra. Eles dizem deter segredos e mistérios em si e cobram sem o menor constrangimento, royalties por isso em suas conferências.

O que há de simples nisso?

Hoje, pessoas mudam de religião, mas não trocam de demônio interior, pois seu espírito pagão permanece e, quando lidam com Jesus, o fazem como se Ele fosse um santo milagreiro, sem vontade ou personalidade, fazendo promessas em forma de desafios e sacrifícios em troca de ‘benças’.

Espero que os irmãos compreendam que minhas figuras de linguagem, meus devaneios e questionamentos são fruto de minhas indagações diante do próprio Deus. Não quero ofender ninguém, mas quero compartilhar minha busca, acreditando que existam perspectivas diferentes ainda a ser exploradas e conhecidas que tomam o rumo do verdadeiro evangelho simples. Não sou dono de nada novo, nem recebi de Deus uma outra revelação. Sou uma alma em luta contra as confusões interiores e envolvida numa busca sincera, nada mais!

O Evangelho simples? Esse não pode ser encontrado através de uma Bíblia literal como se fosse a Palavra de Deus, mas estou convicto de que está derramado na Palavra de Deus contida nessa mesma Bíblia. Portanto, observo que a A simplicidade está na “Vida no Espírito de Vida”, na relação íntima com Jesus, sem intermediários, sem preconceitos e tradições sedimentadas em nossas almas.

Reforma interior é o primeiro passo para o Evangelho Simples! E o primeiro passo antes da Reforma é quebrar tudo e recomeçar a construção.

Rafa

Funda-mental!


"A ciência incha, mas o amor edifica. E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber". 1 Coríntios 8:1-2

Hoje, aqui no Brasil, vivemos cercados por afirmativas absolutas no campo da fé. Em nossa necessidade emergente de provar aos outros que possuímos (ou estamos possuídos) pela revelação certeira da verdade, transformamos a fé orgânica – que deveria ser fonte de vida e de convicções interiores e eternas diante da morte e da corrupção deste mundo – em um show de argumentos baseados em perspectivas quase sempre ilógicas.

Tudo fruto da recorrente prática religiosa que insiste em transformar parábolas, alegorias e aforismos sagrados em súmulas e tendências jurisprudenciais diante da vida e da sociedade.

Traduzindo: fundamentalismo!

Todos os que cremos estamos (sobre) naturalmente imbuídos de uma busca pessoal por uma nova cultura, um novo jeito de ser e de se portar diante da vida e das coisas que a envolvem.

Lembro-me que, certa vez, após um batismo coletivo na igreja em que servia em Porto Alegre, um menino bem jovem - uns doze anos – chegou em mim e perguntou: - E agora que sou batizado, o que eu devo fazer? Sem saber bem como responder de forma convicta, a primeira ‘coisa’ que me veio à mente foi: - Decore os Dez Mandamentos!

Nessa época, eu tinha uns vinte e poucos anos, estava começando a carreira ministerial e tudo o que eu tinha em minhas mãos eram os catecismos que havia recebido por tradição em escolas dominicais. Ocorre, no entanto, que o tempo com suas intempéries, o correr da história e as mudanças que a própria vida infere a todos são inexoráveis promotores de transformações em qualquer pessoa e aquelas regrinhas básicas se tornaram fracas diante da complexidade da existência humana. Talvez fosse o bastante pra mim, aos vinte e poucos e pro guri aos doze, mas não é mais suficiente para respaldar a fé de alguém que busca muito mais do que molhar os tornozelos na imensidão desse mar que está diante de todos.

Tudo isto me conduziu por um caminho de reflexões mais profundas e tem me obrigado a mergulhar minha âncora num lugar cada vez mais misterioso (Hb. 6:19), no qual não há respostas objetivas – tal como as do catecismo – e os questionamentos se tornam cada vez mais complexos.

Diante da violência que só aumenta, da corrupção insistente dos principais deste mundo, da morte que chega cada vez mais perto, da doença que nos acomete e nos tira o brilho dos olhos, do esfacelamento das famílias, das injustiças sociais cada vez mais gritantes e nós, por outro lado, cada vez mais surdos a elas.

Através de nossa posição literal da Bíblia, nos tornamos implacáveis perseguidores dos gays e miseráveis inertes diante dos pastores corruptos, adúlteros e idólatras; é pela Bíblia também que abençoamos as nações capitalistas, financiadas pelas indústrias das guerras e pelo consumismo desenfreado, cujos líderes impõem suas direções através do cassetete da propaganda e, por outro lado, excomungamos os miseráveis socialistas, por seu virtual insucesso, falta de glamour e por seus líderes tiranos, os quais usam cassetetes de pau.

Cansa ter que lutar pela fé (algo tão particular e nada convencional) diante dos que se dizem irmãos, os quais tentam desqualificar a todos quantos imaginem novos rumos e possibilidades bíblicas.

Veja só, não me interessa impor meus conhecimentos sobre outros, mas o que anseio de verdade é pela chegada de um tempo em que possa compartilhar o conhecimento como um pão, assim como no modelo do Cristo.

Rafa

Onde está Jesus?


Um dia desses, há poucos meses atrás, entendi em meu espírito que deveria mudar, sair, levantar, sacudir a poeira, encarar novas possibilidades. Sempre soube que a maioria vive de bravatas e que o ato dinâmico de seguir em frente e pagar o preço da mudança era pra poucos. Tive que renovar minha fé e acreditar que aquilo que eu sempre pregava, serviria também pra mim!

Aprendi na pele de reparador que repaginar, reinventar, refletir e ressurgir são coisas ligadas ao ato de reparar!
Percebi: é tempo de reconstruir, mas o que vou reconstruir?
Cheguei a Minas e os crentes me perguntaram: o que você está fazendo aqui?
Vai iniciar um movimento, vai abrir uma nova igreja, vai pregar nas esquinas, vai fazer um programa de rádio?
Pensei e respondi: já comecei minha revolução, em silêncio! Quando me sento à mesa das pessoas nos bares e converso com elas, quando me coloco à disposição do necessitado, buscando me tornar seu amigo (não um boneco travestido com panfletos na mão e versículos decorados, mas alguém que deseja compartilhar sinceramente o que de Deus recebeu), quando canto uma canção que toca um coração e o faz emocionar-se, quando a voz e o dom alcançam a intimidade do transeunte que passava desatento, tal como peixe atraído pela isca, fisgando pessoas... Me vejo vivendo a verdadeira promessa do Mestre: farei-te pescador de homens!
Não quero mais fazer festa pra crente apóstata, bater palma pra louco dançar, pois a igreja se perdeu e pior, se perdeu do seu Senhor.
“Onde está Jesus?” - Maria perguntou diante do túmulo vazio – e o anjo respondeu: "Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive?” (Lucas 24:5).
Que resposta é esta? Onde estava Jesus, afinal?
Ora, Ele esta vivo, simples assim. O fato do Senhor não estar morto já explica porque não se deve procurá-lo em uma sepultura, óbvio.
Crente, pare de procurar aquele que vive entre os mortos, pois Jesus ressuscitou e não está mais no sepulcro.
Se formos ao cemitério encontraremos túmulos ornamentados com cruzes, anjos e diversos outros símbolos cristãos, mas sabemos em nossa consciência que lá dentro não há nada além de ossos e restos mortais, pois a vida já se foi.
A igreja se transformou num sepulcro quando passou a se misturar com o sistema do mundo, quando enxergou as possibilidades de ganho na política dos homens, quando permitiu que a corrupção tomasse seu lugar nos bancos em cima dos púlpitos, quando passou a violentar e estuprar a Noiva de Cristo, sugando a vida e a esperança dos pequeninos, ferindo-lhes a consciência, golpeando seus corações sinceros e cheios de boa fé.
Jesus não está mais ali, tudo o que restou foi um véu cobrindo a ausência de uma glória antiga que já se foi, mas que continua a manipular os que, com preguiça de reinventar-se e agir, se acomodaram aos ritos mortos, trocando uma relação viva pela conformação com o sistema que opera a morte.
Onde está Jesus?
Eis a resposta: “No caminho, conversavam a respeito de tudo o que havia acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles” Lucas 24:14-15
Jesus está no Caminho, andando com as pessoas, conversando com elas, fora do Arraial, fora da religião, fora dos sistemas pré estabelecidos que coordenam a fé alheia, Jesus está plantando a semente no coração dos ímpios, dos gentios, dos pagãos, dos pecadores.
Meu último apelo nesta última carta que vos escrevo é este: saiam das igrejas e voltem a andar com Ele; abandonem essa cripta, pois Jesus está no bar, na rua, na praça, tocando violão com os grupos de meninos e meninas, está em meio aos que bebem, que fumam, que se drogam por não ter outra perspectiva que lhes de satisfação, Jesus está pastoreando suas ovelhas e resgatando-as do mesmo lugar onde eu e você fomos resgatados.
Havia me esquecido onde era, mas agora lembro e voltei pra lá, vivo entre eles, mas não como um deles e sim como um de Deus.

Abraço a todos,

rafael

O dia em que abandonei a música gospel


Sempre que tomei decisões radicais em minha caminhada de fé, o fazia respaldado por uma Palavra. Acredito na Palavra e na revelação que ela produz em nossos espíritos, nos tornando capazes de conduzirmos nossas vidas em fé e iluminação por caminhos onde Deus deseja que andemos.

Alguns sucessos me alegraram, ao passo que muitos fracassos me abalaram. Porém, nem um, nem outro, foram decisivos para nortear os passos que dava (e ainda hoje, procuro fazer assim).
Fatores exteriores nunca foram definitivos pra mim, no entanto, a Palavra sempre foi algo que me motivou a ir adiante ou retroceder; a falar ou calar; a fazer guerra ou a promover paz.
O dia em que abandonei a música gospel não foi aquele em que me desapontei com alguns dos meus heróis, observando-os venderem suas almas à Babilônia. Nem o dia em que fui desvalorizado por meus irmãos, chamado de utopista, ingênuo, sonhador, iludido e idealista (tudo isso pra mim sempre foi elogio). O dia em que abandonei a música gospel não foi aquele em que após trabalhar por períodos inteiros, meses a fio, ano após ano, debaixo de sol, madrugadas adentro, fiquei sem receber o reconhecimento, tampouco a generosidade dos irmãos.
Eu sentia, sorria e sofria cada situação, fossem boas ou ruins, mas eu sempre estive lá, com as mãos firmes no “cabo do guatambu”, enquanto regava a terra com minhas lágrimas, fiel às promessas divinas.
O dia em que abandonei a música gospel foi um dia estranho em um momento extremamente atípico. Eu estava andando num ônibus, indo ao centro de Porto Alegre e, enquanto conversava com um amigo, abri a Bíblia e li pra ele um texto bíblico: "Quanto a você, filho do homem, seus compatriotas estão conversando sobre você junto aos muros e às portas das casas, dizendo uns aos outros: ‘Venham ouvir a mensagem que veio da parte do Senhor’. O meu povo vem a você, como costuma fazer, e se assenta diante de você para ouvir as suas palavras, mas não as põe em prática. Com a boca eles expressam devoção, mas o coração deles está ávido de ganhos injustos. De fato, para eles você não é nada mais do que alguém que entoa cânticos de amor com uma bela voz e que sabe tocar um instrumento, pois eles ouvem as suas palavras, mas não as põem em prática”. Ezequiel 33:30-32
A versão Revista e Atualizada da Bíblia diz que eles “lisonjeiam com sua boca, mas seu coração segue a avareza”.
Eis um retrato triste que vi naquela tarde, dentro daquele ônibus. Meus ouvintes vão aos eventos, cantam junto, choram, clamam, dançam, mas seus corações não podem receber verdadeiramente a palavra de Deus, pois amam demais o dinheiro. De tudo o que ouvem, como verdadeiros hipócritas, nada põem em prática.
Generalizar é um erro, então, poderia até acreditar que alguma semente lançada na terra chegaria a dar algum fruto. No entanto, anda prefiro ficar com a Palavra de Deus, ao invés de uma esperança tola e infantil que incite à insistência, enquanto observo que o próprio Espírito de Deus já mudou de rumo.
Como dizia sabiamente meu tio Laerte: “Chega de bater palma pra louco dançar”.

Rótulos, currais, vida de gado, povo marcado...


Nosso mundo sempre foi dividido em currais. Cercados, propriedades e jaulas sempre demarcaram os limites onde cada pessoa de cada grupo poderia ir. São os segmentos, as facções, as denominações que trazem um senso de pertencimento a algo que gera em nós uma espécie de satisfação e segurança. Temos uma tribo, um grupo, fazemos parte de algo grande, dizemos!

Esta segmentação social ajuda a formatar a identidade do indivíduo e, por conseqüência, o norteia.
Todos gostariam de pertencer a uma tribo, uma nação ou um povo com o qual se identificam e onde reconhecem estar enraizados.
No entanto, todos os segmentos e/ou currais impõem limites. Se usarmos como extensão nominal a tribo de onde viemos - seja qual for sua dimensão – logo seremos rotulados pelos demais.
Lembro-me quando saí do interior de Minas Gerais para morar na capital do Rio Grande do Sul e, logo na primeira semana, fui assistir ao show de um artista que gostava. Na volta pra casa, tomei o ônibus errado e me perdi e enquanto conversava com o solícito motorista, tentando receber algumas dicas de como retornar, alguém, percebendo meu sotaque estranho perguntou: “De onde tu é, tchê?” Respondi: “de Minas Gerais” e diante da resposta muitos no ônibus riram e começaram a fazer piadas sobre caipiras otários. Como bom diplomata que sempre fui, ri junto!
Anos depois, quando me converti ao cristianismo numa igreja evangélica, alguns no trabalho começaram a me chamar de “padre”, “pastor”, “irmão”, “mórmon” etc. Nem preciso dizer que era pejorativo! Tempos depois, comecei a questionar determinadas coisas que via na instituição evangélica. Foi aí que virei “punk”, “pichador”, “moleque”, “judas”, “rebelde”, entre outros adjetivos.
Seja o mineirinho otário, o crente babaca ou o punk rebelde, o fato é que sempre tentam nos encurralar e nos colocar num canto, onde podem decifrar quem somos e a que grupo pertencemos. É natural fazermos isso para mantermos a “ordem” geral da sociedade (em nossas mentes).

Há um texto que ilustra o que quero compartilhar com vocês. Está em I João 5:18-20 e diz assim: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge. Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo jaz no Maligno. Sabemos também que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento, para que conheçamos aquele que é o Verdadeiro”.

Ali no meio há um versículo célebre pra todos nós, crentes: “O mundo jaz no Maligno”. Isto é, “o mundo todo está sob o poder do Mal”.
Este mundo é um grande campo e nós um extenso rebanho subdividido em muitos currais, cujas demarcações são efetuadas através de diversos fatores culturais, regionais, tradicionais e religiosos que nos rotulam como sendo parte disto ou daquilo. Pensamos estar livres tendo um vasto campo diante de nossos olhos, mas estamos aprisionados nos conceitos oriundos das tribos às quais pertencemos, cujas filosofias professamos e diretrizes obedecemos.
Contudo, apesar da Bíblia afirmar que todo o cosmos está sob o poder do Mal, o restante do texto de João diz coisas como: “aquele que é nascido de Deus não está no pecado”, “quem nasceu de Deus está protegido e o Mal não o atinge” e por fim declara que “recebemos entendimento de Jesus para conhecermos a Verdade”.
O ponto nevrálgico dessa questão está exatamente aqui: “o conhecimento da Verdade, que vem de Jesus”.
O Senhor disse: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, João 8:32 e este é o princípio que Ele próprio aplicou a sua existência terrena e espera que cada cristão faça o mesmo.
A Verdade nos liberta, mas de quê nos liberta? Do domínio mental, emocional, da co-dependência que temos com nossos segmentos e subdivisões. O Senhor quer nos promover a um status espiritual que se reflete em uma vida que flutua sobre esta existência terrenal e suas subdivisões.
Quando conhecemos a Verdade, deixamos de depender da aprovação social para nos sentirmos plenos; de carecer de um senso de pertencimento para nos sentir aceitos; desistimos do inútil esforço para alcançar o respeito, o carinho e a admiração dos outros, pois sabemos a Verdade e ela por si só nos basta.
Pelo conhecimento da Verdade, superamos esta necessidade que aflige todos os seres humanos: a da aceitação!
Cristo nos libertou desta inútil necessidade, quando nos ensinou o caminho da paz com Deus, cancelando as dívidas que tínhamos e nos reconciliando com o Pai que aborrecemos. Agora, tudo o que precisamos é flutuar sobre a vida terrenal, sem as obrigações e tentativas de “ser alguém” neste mundo mal.
Será possível, simplesmente viver? Não se preocupar com o dia de amanhã, com a conta por vencer e com o pecado que assedia?
Triste ver que o Evangelho que liberta, cura, satisfaz e deveria dar um reboot em nossos padrões de sucesso e felicidade, limitou-se, hoje, a mais uma instituição, mais uma tribo, mais um curral.
Ser crente agora não significa ser alguém que reflete a Luz do Messias sobre a Terra e suas instituições, alguém capaz de transitar pelo mundo que jaz sob o controle de Satã, adentrando sem se contaminar na política, nos negócios, na arte e na vida de modo geral.
Infelizmente, tudo o que conseguimos fazer com o que entendemos da mensagem do Mestre foi construir mais um segmento social, arrebanhando o gado de outros currais, atravessando terra e mar para fazer prosélitos e, tal como faziam fariseus e escribas em seu tempo, transformando-os em filhos do Diabo. Por quê? Porque não os libertamos, só os realocamos dentro do mesmo campo.
O mundo jaz no maligno e a igreja também! Quem se levantará para viver a Verdade livre, ao invés de simplesmente desejar construir seu próprio curral imperial de mármore, bronze e riquezas transitórias?
Gostaria de fazer parte disso e estou em busca...

O naufrágio evangélico


É utopia pensar que uma atitude boa no meio de um oceano de maldade pode fazer uma grande diferença. Sei que no universo evangélico em ampla expansão no Brasil, há quem acredite no “efeito borboleta” que bons atos podem causar, mas a história da Igreja nos mostra muitos exemplos de cismas e revoluções que foram fundamentais para preservação do fino fio condutor da corrente da Verdade.

Atualmente, nos escondemos por trás de um pano obscurecido por hipocrisia e tentativas falsas de manutenção da paz, o qual vem impedindo a muitos de reagir. Esse pano, formado por retalhos de argumentações conformistas e, por vezes, prevaricadoras, possui terminologias cheias de frases de efeito, tais como: “não esquente a cabeça, pois a igreja é uma arca de Noé, está cheia de animais e coco por todos os lados”, ou ainda, “somos imperfeitos mesmo, mas é melhor estar no meio da imperfeição, do que longe dela” e, pior, “não estou dando meu dinheiro a homens e sim a Deus, o que eles fazem com o dinheiro é problema deles”.

Por acaso não foi o mesmo que fez Pilatos, ao lavar suas mãos e condenar o Senhor? Esses argumentos são entreguistas demais, a meu ver, e já que é pra abusar das máximas, prefiro ficar com a célebre “antes só do que mal acompanhado”.

Voltando a História, podemos ver muitos pré-reformadores combatendo de forma veemente determinados papas. Óbvio que existiram papas bons e maus, mas a Reforma não pode se deter a uma ótica simplista, aceitando um sistema corroído porque “ora” está sob o comando de alguém bom, “ora” de alguém mau.

Sistema é sistema e se está em metástase, então, o câncer deve ser arrancado para que não morramos todos. Foi esta atitude, afinal, que caracterizou o movimento protestante como um ato reformador. Foi um ataque direto e incisivo ao âmago da questão: o sistema precisava ser mudado!

Como a Matriz não aceitou a mudança, então, os que não morreram sob a perseguição, fundaram novos formatos para desenvolver sua fé. E assim vem sendo feito por toda a história, com a criação de novas comunidades e modelos de cristianismo. Sempre em busca de uma atitude condizente com uma fé piedosa.

Muitas reformas, maiores e menores, vêm sendo provocadas no decorrer da história da igreja. É algo natural à evolução, às transformações culturais. A igreja de Cristo, como o odre que recebe o vinho novo, está sempre sendo adaptada aos novos tempos e eras que chegam.

Hoje, há os que pregam uma unidade cega, injusta e imoral, a qual tripudia da justiça divina e de sua genuína revelação. Esses estão, na verdade, contribuindo com a corrupção, o que configura seu próprio estado corrupto, mesmo que passivo.

Olhe ao seu redor, reflita a Palavra de Deus em sua mente, abra-se para novas possibilidades e veja que pode ser muito melhor, muito mais sincero e honesto, muito mais parecido com Jesus e menos parecido com o cristianismo babilônico que perdurou por séculos sombrios de corrupção a manipulação, o que agora volta sob os auspícios da denominação evangélica.

Vou logo avisando que vejo o iceberg logo à frente e o naufrágio iminente dessa religião e não vai adiantar nada tocar música gospel quando o navio afundar.

Cristianismo, Animus e Anima


Ateus tentam provar que a fé cristã é aprendida, assimilada através da cultura e da imposição familiar. Há também os que dizem que homossexuais nascem assim e não aprendem a ser assim.

Qual o critério para avaliar quem nasce de um jeito, ou aprende a ser de outro?
Não há, acho! Só o que acho é que debatemos tudo segundo nossa ótica míope e perspectiva limitada de mundo, de criação, de humanidade.
Nossos olhos mal conseguem enxergar as gerações passando e tem gente que quer explicar o infinito a partir desse ponto. Absurdo!
Ora, é obvio que NÃO nascemos cristãos. Tornamos-nos cristãos a partir do conhecimento do Evangelho, o qual nos conduz ao arrependimento de nossas obras mortas e pecaminosas. O Evangelho se torna parte do que somos quando traz sentido à nossa existência decaída, quando nos liberta da acusação, trazendo alívio às almas pobres e desesperadas.
E ele está aí, ultrapassando séculos de histórias boas e ruins, inscrevendo mais vidas no Livro da Vida e, como sempre, desde sua fundação há dois mil anos, dividindo opiniões.

Da mesma forma, entendo que a homossexualidade também é adquirida. Não acredito que alguém nasce gay, pelo contrário, um olhar racional e lógico observa claramente que a homossexualidade é algo não natural, não combina com a fisiologia, com os formatos e anatomias humanas, mas tenho consciência de que pode ser assimilado, aprendido e, portanto, absorvido como verdade absoluta para uma alma desesperada e perdida, que entende ser alguém de um determinado sexo, preso dentro de um corpo avesso, como se costuma dizer.
A diferença nesses dois casos – entendo - é que quanto aos cristãos, é necessário passar pelo mar do arrependimento, que faz a transição entre o deserto e a terra prometida. Ou seja, o caminho é o do quebrantamento da alma, passando pela aceitação de sua miséria e pelo reconhecimento de sua inaptidão para solucionar suas próprias crises existenciais, sabendo, no entanto que precisa de mudança.
Enquanto isso, para tornar-se assumidamente gay, é necessário aceitar sua condição interior, a qual perturba a alma, liberar suas sensações e desejos interiores, deixar sair pra fora do armário a materialização de uma psique confundida pelo pecado.
Ou seja, faz-se o caminho oposto! Aceita o pecado, trabalha a mente para sentir-se natural e, então, encarna sua confissão particular e interior, ao invés de encarnar o Verbo de Deus.
Resumindo, a diferença está entre o que se justifica no Alto e o que se auto justifica.

Eu sei e entendo sinceramente que as provocações interiores de uma pessoa que vive em tal conflito são, muitas vezes, insuportáveis. Mas também acredito que quando uma alma vive em tal paradoxo, não encontrará satisfação e descanso ao fazer sexo com alguém do mesmo sexo. Penso que a discussão deva ir mais além, passando de questionamentos carnais, sexuais, passionais, saindo da pequena perspectiva revolucionária de levantar bandeiras, participando de um grupo em que todos te ensinam a ser como sua alma pecadora lhe doutrinou a ser.
Acho que nesse aspecto, os movimentos homossexuais se tornaram altamente religiosos e, em decorrência disto, tão fundamentalistas quanto os piores cristãos da história.
Uma doutrina que me atrai e chega até a confortar um pouco meu coração é a do pensamento de Jung, quando refletiu sobre ‘Animus e Anima’, desenvolvendo o entendimento de que todos somos machos e fêmeas e que, o perfeito equilíbrio entre um e outro, através de uma educação e cultura que aceite bem as particularidades de um e outro em uns e outros, conduz a um passo que vai além da sexualidade, levando a pessoa à completude de sua humanidade (não sou do ramo da psicologia e não posso explicar sobre o tema, o qual nem compreendo completamente, mas sugiro que leia sobre ele).

Se você está empunhando seu estandarte, pela mera causa de poder fazer sexo com quem quiser, do jeito que quiser, então, você está lutando por suas paixões carnais, suas concupiscências e isto te levará aos prazeres transitórios e aos infernos, o daqui e do porvir. Agora, se você está em busca de se tornar um ser humano mais equilibrado, reconhecendo características masculinas e femininas em si mesmo, buscando tornar-se uma pessoa melhor em sua vocação/chamado para este mundo e geração, então, você está na busca pelo belo, pelo melhor, pelo supra-sumo da existência humana e eu tenho certeza de que Jesus é a pessoa certa para lhe acompanhar nesta jornada.